Como seria crescer sem precisar colocar sutiã quando o seio começa a esboçar algum volume? As tet4s livres são um atentado à sociedade desde as primeiras revoluções feministas. Sutiã queimado perde a função de segurar o mamá. Sim, é preciso cautela com o uso dos termos, escrever em códigos para que nenhum algoritmo se perca da manada, vai que essa crônica chega a quem é antifeminista.

Já se perguntaram por que as mães de meninas que estão crescendo as ensinam a colocar um top desconfortável desde cedo? Elas estão protegendo o corpo de suas filhas. Quando elas colocam short por baixo do vestido também. Elas estão protegendo de quem?

As mães postergam o contato com um tipo de violência que elas conhecem bem, porque circula socialmente sem qualquer pudor. Elas se deparam com esse tipo de violência todos os dias, já que ele esteve presente na trajetória de seus corpos. Esse tipo de violência tem muitas faces e diferentes níveis de intensidade. Por causa dele, somos domesticadas a uma passividade sob a desculpa de nos manter protegidas. Protegidas ou controladas, a gente reproduz isso quando coloca peças de roupa a mais nas nossas filhas. Como se isso, de fato, as protegesse de um estupr0. Prefiro pensar que as protege, ao menos, de habitar o imaginário de um pedófil0.

Há uma sistematização da violência contra a mulher que se entranha antes mesmo de as meninas começarem a menstruar. As transformações que ocorrem em seus corpos não justificam as violências que os atravessam. Depois que as meninas podem gerar, então, seus corpos tornam-se suscetíveis a essa violência em outro nível. Imaginem uma criança de doze anos ser obrigada a gerar em seu ventre o fruto de um estupr0.

Negar a sistematização da violência contra as mulheres é ser conivente com a sua propagação. Todos os dias, ao meio-dia, uma série de reportagens anunciando a morte de mulheres estampa a tela da TV da minha avó. Há quem conteste os números e culpe a emissora de partidarismo. As pesquisas têm relacionado o crescimento e a circulação dessas violências também às novas dinâmicas digitais. A violência que já circulava socialmente encontra no mundo virtual novas formas de organização e difusão.

Como as mães vão proteger suas filhas das violências que se propagam pelas redes sociais e que, embora aconteçam no meio virtual, reproduzem com afinco os gestos e as violências do mundo real?

É na rede mesmo que andam negando que a violência contra as mulheres seja estrutural. Estão afirmando que o problema do feminicídio é a tipificação. O problema do feminicídio é que ele ainda existe.

Imaginem o perigo de colocar no poder quem nega a existência da violência de gênero, desacredita os números e despreza as pesquisas científicas. Infelizmente, já sabemos com quantos mortos se faz esse tipo de necr0política.

Durmo, desde domingo, intranquila, enquanto velo o sono da minha filha. Rezo, canto e conto. Mais um dia se finda e ela não foi violad4. Amém.

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Feito no Espírito Santo.