Li em voz alta para minha amiga Sara o texto que fiz sobre desilusão. Ela achou triste. Eu não. Eu acho que é cotidiano. Como quando alguém da família manda fotos das goiabas do pé de minha avó.
Meu irmão tinha condenado o pé, disse que morreu. Acho que isso tem mais de cinco anos, mas as goiabas ainda estão surgindo. Cotidiano. A gente não sabe se é um pé diferente, se é o primeiro pé, se a goiaba é rara ou comum.
Meu irmão jura que os brotos antigos viraram um novo pé e o antigo nada mais é do que um tronco oco. Não importa muito, o que importa é que cada goiaba é uma oportunidade para demonstrar afeto. Minha avó, com as goiabas, diz ao meu irmão que gosta dele e que se importa com o que ele diz.
Isso é cotidiano.
Gosto de escrever sobre cotidiano. Eu realmente acredito que são nas constâncias e hábitos que a vida se faz. A desilusão faz parte disso, e não é necessariamente triste, mas adulta. E ok os adultos serem tristes.
Mas explico: todos os dias acontece alguma frustração porque a gente imagina as coisas de um jeito que elas não acontecem. Em família, em trabalho, em amor, em cronograma de tarefas domésticas. Todo dia a gente mata uma ilusão e isso é cotidiano.
Algumas ilusões também são. O pé de goiaba da minha avó pode ser uma ilusão ou uma desilusão vencida. Porque se é mesmo um broto que nasceu no lugar do originário pé, o antigo está morto. Aceitar a morte do pé de goiaba é uma desilusão e seria adulto.
Acontece que as goiabas existem e estão sendo colhidas. A ilusão do pé infinito de goiaba nos devolve à infância. Minha avó de 84 anos ainda brinca de implicar com meu irmão de 26 porque quem entende de goiaba é ela. E isso é muito bonito, porque com essa ilusão ela consegue brincar mais muitos anos.
Segundo meu tio, as goiabas andam mais doces do que o abacaxi de Marataízes. E tenho certeza que isso acontece por conta da piadoca com a condenação do pé. A goiaba tem mais gosto quando vem com história.
E por falar em história, eu tenho um livro em parceria com dois espanhóis, a Irene e o Max. Quando as coisas vão andando bem com o livro, Irene sempre fala “que ilusión”, e eu entendi que ilusión é sonho. Isso mexe no meu jeito de ver as coisas.
Quando eu entendo que preciso do real, recorro à desilusão e inhame. Quando preciso projetar, recorro à ilusão e café. Um pouco adulta, um pouco criança. Triste às vezes também, mas sempre vendo beleza no cotidiano, ainda que eu não tenha em casa um pé de goiaba.
Feito no Espírito Santo.



